"Quem luta, nem sempre ganha, mas quem não luta, perde sempre!"

 
Segunda-feira, 29 de Setembro de 2008
É tempo de lutar!

«Uma parte da burguesia deseja remediar os males sociais para assegurar a existência da sociedade burguesa.
A ela pertencem: economistas, filantropos, humanitários, melhoradores da situação das classes trabalhadoras, organizadores da caridade, protectores dos animais, fundadores de ligas anti-alcoólicas, reformadores ocasionais dos mais variados.
E também este socialismo burguês foi elaborado em sistemas completos.
Como exemplo mencionamos a Philosophie de la misère, de Proudhon.
Os burgueses socialistas querem as condições de vida da sociedade moderna sem as lutas e perigos delas necessariamente decorrentes. Querem a sociedade existente deduzidos os elementos que a revolucionam e dissolvem. Querem a burguesia sem o proletariado. A burguesia, naturalmente, representa-se o mundo em que domina como o melhor dos mundos. O socialismo burguês elabora, a partir desta representação consoladora, um meio sistema ou um sistema completo. Quando exorta o proletariado a realizar estes sistemas e a entrar na nova Jerusalém, no fundo só lhe pede que fique na sociedade actual, mas que se desfaça das odiosas representações que faz dela.

Uma segunda forma, menos sistemática mas mais prática, [deste] socialismo procurou tirar à classe operária o gosto por todos os movimentos revolucionários, mostrando-lhe que só lhe poderia ser útil, não esta ou aquela alteração política, mas uma alteração nas relações materiais de vida, nas relações económicas. Por alteração das relações materiais de vida este socialismo não entende, de modo nenhum, a abolição das relações de produção burguesas, só possível pela via revolucionária, mas melhoramentos administrativos que se processem sobre o terreno destas relações de produção, portanto que nada alterem na relação de capital e trabalho assalariado, mas que no melhor dos casos reduzam à burguesia os custos da sua dominação e lhe simplifiquem o orçamento de Estado.
O socialismo burguês só alcança a sua expressão correspondente quando passa a ser mera figura de retórica.

Comércio livre! no interesse da classe trabalhadora;

Protecção alfandegária! no interesse da classe trabalhadora;

Prisões celulares! no interesse da classe trabalhadora: esta é a última palavra do socialismo burguês, e a única dita a sério.

O socialismo da burguesia consiste precisamente na afirmação de que os burgueses são burgueses — no interesse da classe trabalhadora.»

 

«...Na mesma medida em que a burguesia, quer dizer, o capital se desenvolve, nessa mesma medida desenvolve-se o proletariado, a classe dos operários modernos, os quais só vivem enquanto encontram trabalho e só encontram trabalho enquanto o seu trabalho aumenta o capital. Estes operários, que têm de se vender à peça, são uma mercadoria como qualquer outro artigo de comércio, e estão, por isso, igualmente expostos a todas as vicissitudes da concorrência, a todas as oscilações do mercado...»

Karl Marx e Friederich Engels

in: Manifesto do Partido Comunista

Fevereiro de 1848

 

Hoje, como ontem:

 



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Domingo, 28 de Setembro de 2008
Presente! agora e sempre!

Pablo Neruda morreu com 69 anos de idade, vítima de cancro na próstata e flebite.

Depois do golpe militar de 11 de Setembro, Pablo Neruda entrou em grande depressão. Achava-se deprimido com a deposição e morte do seu amigo Salvador Allende, de cujo governo foi embaixador em Paris até 1972.

Desde a tomada do poder de Pinochet que vigorava em todo o Chile o estado de sítio e recolher obrigatório.  O funeral de Pablo Neruda, foi assim a primeira manifestação pública depois do golpe militar - e contra esse mesmo golpe - de 11 de Setembro.

 

Debaixo do clima de terror que se vivia naqueles dias no Chile, o corpo do poeta foi acompanhando até o cemitério por cerca de 500 pessoas que ao longo do percurso declamavam os seus versos, cantavam a "Internacional" e gritavam:

“Camarada Pablo Neruda, presente, agora e sempre”.

 

O cortejo seguia o seu trajecto e a declamação dos versos também:

 

"Não estás morto,

não estás morto.

Estás apenas dormindo.

Como dormem as flores

quando o sol se reclina.

 

Companheiro Pablo Neruda!

ao que o cortejo respondia em coro unânime:

Presente! Agora e sempre!

 

"Não estás morto,

não estás morto.

Estás apenas dormindo.

Como dormem as rosas

em seu talho de espinho.

 

Companheiro Pablo Neruda!

Presente! Agora e sempre! "

 

Baseado em testemunhos de Paulo César de Araújo e Evandro Teixeira, jornalistas do JB (Jornal do Brasil) presentes no funeral.

 

Com este relato, termino os post's que assinalaram neste blog os 35 anos passados sobre a morte do Intelectual, Poeta, Escritor e Comunista, Pablo Neruda.

A sua obra, o seu humanismo e o seu percurso de vida perdurarão para sempre em todos aqueles que amam a liberdade, a justiça e a igualdade. Em todos aqueles que fazem destes valores as bandeiras das suas batalhas e estão disponíveis para a luta persistente e cada vez mais dificil que é necessário travar contra esta sociedade capitalista, egoista, desigual e profundamente injusta.

Pablo Neruda, estará sempre presente entre aqueles que lutam com esperança e confiança no futuro, com a consciência de que uma sociedade melhor é possível, mas que só através da luta essa transformação será realidade. 

  

Companheiro Pablo Neruda! Presente! Agora e sempre!

 



publicado por vermelho vivo às 20:24
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Sábado, 27 de Setembro de 2008
Escolhi um caminho

Embora eu me tenha tornado militante muito mais tarde no Chile, quando ingressei oficialmente no partido, creio ter-me definido como um comunista diante de mim mesmo durante a guerra da Espanha. Muitas coisas contribuíram para a minha profunda convicção.

 

O meu contraditório companheiro, o poeta nietzschiano León Felipe, era um homem encantador. O melhor entre os seus atrativos era um anárquico senso de indisciplina e de rebeldia zombeteira. Em plena guerra civil adaptou-se facilmente à chamativa propaganda da FAI (Federación Anarquista Ibérica). Percorria frequentemente as frentes anarquistas onde expunha seus pensamentos e lia os seus poemas iconoclastas. Estes reflectiam uma ideologia vagamente acrata, anticlerical, com invocações e blasfémias. As suas palavras cativavam os grupos que se multiplicavam pitorescamente em Madrid enquanto a população ia para a frente de batalha cada vez mais próxima. Os anarquistas pintavam os eléctricos e autocarros, metade vermelha e outra amarela. Com os seus cabelos compridos e barbas, colares e pulseiras de balas, protagonizavam o carnaval agoniante da Espanha. Vi vários deles calçando sapatos emblemáticos, metade de couro vermelho e outra de couro negro, cuja confecção devia ter custado muitíssimo trabalho aos sapateiros. E não pensem que era uma festa inofensiva. Cada um levava punhais, pistolas descomunais, rifles e carabinas. Em geral ficavam nas portas principais dos edifícios em grupos que fumavam e cuspiam, fazendo ostentação de seu armamento. A sua principal preocupação era cobrar os rendimentos aos aterrorizados inquilinos, assim como fazer-lhes renunciar voluntariamente a seus adornos de valor, anéis e relógios.

 

Voltava León Felipe de uma de suas conferências anarquistas, já de noite, quando nos encontramos no café da esquina de minha casa. O poeta levava uma capa espanhola que ia muito bem com sua barba nazarena. Ao sair, roçou com as elegantes pregas da sua ostentação romântica num dos seus melindrosos correligionários. Não sei se o aspecto de antigo fidalgo de León Felipe aborreceu aquele "herói" da retaguarda mas o certo é que fomos detidos a poucos passos por um grupo de anarquistas, encabeçados pelo ofendido do café. Queriam examinar os nossos papéis e, depois de dar-lhes uma vistoria, levaram o poeta lionês entre dois homens armados.
Enquanto o conduziam para o fuzilamento próximo à minha casa, cujos tiros noturnos muitas vezes não me deixavam dormir, vi passar dois milicianos armados que voltavam do front. Expliquei-lhes quem era León Felipe, qual era a falta em que havia incorrido e graças a eles pude obter a libertação do meu amigo.

Esta atmosfera de perturbação ideológica e de destruição gratuita deu-me muito que pensar. Soube das façanhas de um anarquista austríaco, velho e míope, de longas melenas louras, que se tinha especializado em dar "passeios". Tinha formado uma brigada que baptizou de "Amanecer" porque actuava à saída do sol.

- Você não sentiu uma dor de cabeça? - perguntava à vítima.

- Sim, claro, uma ou outra vez.

- Pois vou dar-lhe um bom analgésico - dizia o anarquista austríaco, encostando-lhe na fronte o revólver e disparando uma bala.

 

Enquanto esses bandos pululavam pela noite cega de Madrid, os comunistas eram a única força organizada que criava um exército para enfrentar os italianos, os alemães, os mouros e os falangistas. E eram, ao mesmo tempo, a força moral que mantinha a resistência e a luta antifascista.

Simplesmente tinha que escolher um caminho. Foi o que fiz naqueles dias e nunca me arrependi da decisão tomada entre as trevas e a esperança daquela época trágica.

 

Pablo Neruda, in: "Confesso que vivi"
 

 

...Encontrei no meu partido, o Partido Comunista do Chile, um grupo grande de gente simples, que tinha deixado muito para trás a vaidade pessoal, o caudilhismo, os interesses materiais. Senti-me feliz de conhecer gente honrada que lutava pela honradez comum, quer dizer, pela justiça.
Nunca tive dificuldades com meu Partido, que com sua modéstia conseguiu extraordinárias vitórias para o povo do Chile, o meu povo. Que mais posso dizer? Não aspiro senão a ser tão simples como os meus companheiros, tão persistente e invencível como eles são. Da humildade nunca se aprende o bastante. O orgulho individualista que se encastela no cepticismo para não ser solidário do sofrimento humano nunca me ensinou nada.

 

Pablo Neruda, in: "Confesso que vivi"



publicado por vermelho vivo às 01:56
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Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008
Poesia e luta

 

Foi quando as mãos dos chilenos

estenderam os dedos para a pampa,

e com o coração em uníssono

iria chegar a unidade das suas palavras:

quando tu, povo, te preparavas para cantar

uma velha canção onde se misturavam

as lágrimas, a esperança e as dores:

chegou a mão do verdugo

e empapou de sangue a praça!

 

Pablo Neruda



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Quinta-feira, 25 de Setembro de 2008
O pampa salitreiro

A minha poesia e a minha vida têm transcorrido como um rio americano, como uma torrente de águas do Chile, nascidas na profundidade secreta das montanhas austrais, dirigindo sem cessar até uma saída marinha o movimento de suas correntes. A minha poesia não rejeitou nada do que pôde trazer no seu caudal; aceitou a paixão, desenvolveu o mistério e abriu caminho entre os corações do povo.

Coube-me sofrer e lutar, amar e cantar; couberam-me na partilha do mundo o triunfo e a derrota, provei o gosto do pão e o do sangue. Que mais quer um poeta? E todas as alternativas, desde o pranto até aos beijos, desde a solidão até ao povo, perduram na minha poesia, actuam nela porque vivi para a minha poesia e a minha poesia sustentou as minhas lutas. E se muitos prémios alcancei, prémios fugazes como mariposas de pólen fugitivo, alcancei um prémio maior, um prémio que muitos desdenham mas que é na realidade inatingível para muitos. Cheguei através de uma dura lição de estética e de busca, através dos labirintos da palavra escrita, a ser poeta do meu povo. O meu prémio é esse, não os livros e os poemas traduzidos ou os livros escritos para descrever ou dissecar as minhas palavras. O meu prémio é esse momento grave de minha vida quando no fundo da mina de carvão de Lota, sob o sol a pino da salitreira abrasada, do socavão a pique subiu um homem como se ascendesse do inferno, com a cara transformada pelo trabalho terrível, com os olhos avermelhados pelo pó e, estendendo-me a mão calejada, essa mão que leva o mapa do pampa nas suas calosidades e nas suas rugas, disse-me com olhos brilhantes: "Conhecia-te há muito tempo, irmão." Esse é o laurel da minha poesia, o agulheiro no pampa terrível, de onde sai um trabalhador a quem o vento e a noite e as estrelas do Chile têm dito muitas vezes: "Não estás só; há um poeta que pensa no teu sofrimento."

 

Pablo Neruda, in: "Confesso que vivi"



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Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008
O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

 

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

 

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

 

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

 

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

 

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

 

Pablo Neruda



publicado por vermelho vivo às 23:13
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Terça-feira, 23 de Setembro de 2008
Pablo Neruda

Pablo Neruda, é o pseudônimo de Nefatli Ricardo Reyes Basoalto, que nasceu a 12 de Julho de 1904, em Parral, no Chile.

Figura maior da poesia de língua Castelhana, na sua poesia traduziu de forma ímpar e sublime a beleza do amor, a guerra civil de Espanha ou a condição dos povos latino-americanos e os seus movimentos libertários.

Para além da sua poesia, Pablo Neruda desenvolveu inúmeras actividades cívicas e políticas ao longo da sua vida. Entre elas: Consul chileno em vários países, senador da República, candidato à Presidência da República, Embaixador do Chile em Paris durante a presidência de Salvador Allende, fundador e presidente da Aliança de Intelectuais do Chile para a Defesa da Cultura.

 

Em 1971, Pablo Neruda, foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura.


Marxista e revolucionário, Pablo Neruda ingressou no Partido Comunista do Chile no dia 8 de Julho de 1945.

Morreu no dia 23 de Setembro de 1973 em Santiago do Chile, doze dias após o sangrento golpe de estado que derrubou a democracia popular chilena e impôs a ditadura de Pinochet durante 17 longos anos.

 

Assinalando os 35 ANOS da morte do Intelectual, Poeta, Escritor e Comunista, todos os post's publicados durante a semana serão textos de Pablo Neruda.

 

 

O meu primeiro poema

 

Agora vou contar-lhes uma história de pássaros. No lago Budi, os cisnes eram perseguidos com ferocidade. Aproximavam-se deles sorrateiramente nos botes e, em seguida, rápido, rápido, remavam... Os cisnes, como o albatroz, devem correr patinando sobre a água, empreendendo dificilmente o vôo e levantando com dificuldade as grandes asas. Alcançados, eram exterminados a pauladas.

Trouxeram-me um cisne meio morto. Era uma dessas aves maravilhosas que não voltei a ver no mundo: o cisne de pescoço negro, uma nave de neve com o pescoço esbelto como que metido numa estreita meia de seda negra, o bico alaranjado e os olhos vermelhos.
Isto foi perto do mar, em Porto Saavedra, Imperial do Sul.

Entregaram-no a mim quase morto. Lavei suas feridas e empurrei-lhe pedacinhos de pão e peixe pela garganta. Devolvia tudo. No entanto, foi-se refazendo dos seus ferimentos, começou a perceber que eu era seu amigo. E comecei a compreender que a nostalgia o matava. Então, carregando o pesado pássaro nos meus braços pelas ruas, levei-o ao rio. Ele nadava um pouco, perto de mim. Eu queria que ele pescasse e indicava-lhe as pedrinhas do fundo, as areias por onde deslizavam os peixes prateados do sul. Mas ele olhava a distância com olhos tristes.
Assim diariamente, por mais de vinte dias, levei-o ao rio e trouxe-o à minha casa. O cisne era quase tão grande quanto eu. Uma tarde ficou mais alheio, nadou perto de mim, mas não se distraiu com os insectinhos com que eu queria ensinar-lhe novamente a pescar. Ficou muito quieto e tomei-o de novo nos braços para levá-lo à casa. Então, quando o tinha à altura do peito, senti que se desenrolava uma tira, algo como um braço negro que me roçasse o rosto. Era o seu comprido e ondulante pescoço que caía. Assim aprendi que os cisnes não cantam quando morrem...

Muitas vezes me perguntaram quando escrevi o meu primeiro poema, quando nasceu em mim a poesia.
Tratarei de lembrar. Muito longe na minha infância e tendo apenas aprendido a escrever, senti uma vez uma intensa emoção e tracei algumas palavras semi-rimadas mas estranhas a mim, diferentes da linguagem diária. Passei a limpo num papel, preso de uma ansiedade profunda, de um sentimento até então desconhecido, espécie de angústia e tristeza. Era um poema dedicado à minha mãe, isto é, a que conheci como tal, a madrasta angelical, cuja sombra suave protegeu toda minha infância. Completamente incapaz de julgar a minha primeira produção, levei-a aos meus pais. Eles estavam na sala de jantar, mergulhados numa dessas conversas em voz baixa que dividem mais que um rio o mundo dos meninos e dos adultos. Desdobrei o papel com as linhas, trêmulo ainda com a primeira visita da inspiração. O meu pai, distraidamente, tomou-o nas suas mãos, leu distraidamente e distraidamente mo devolveu, dizendo:
- De onde o copiaste?
E continuou conversando em voz baixa com minha mãe os seus assuntos importantes e remotos.
Parece-me recordar que assim nasceu meu primeiro poema e que assim recebi a primeira mostra distraída da crítica literária.

Pablo Neruda, in: "Confesso que Vivi", editado em 1974



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Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008
O estado do ensino em Portugal (III)

Eu quero recordar. No ano 2005/2005, a taxa de retenção no básico era de 12,2 por cento. No ano seguinte, já da nossa responsabilidade, baixou para 11,4 por cento. No ano posterior caiu para 10,8 por cento. Este ano, desceu para 8,3 por cento... Esse espectáculo lamentável de quem só aparece na televisão para dizer mal e para negar qualquer sucesso do país é uma ofensa aos professores, uma ofensa aos alunos e uma ofensa àquelas famílias que se empenharam na educação dos seus filhos”.

Estas palavras pertencem ao nosso primeiro-ministro, José Sócrates na intervenção proferida no passado fim de semana no Fórum Novas Fronteiras.

 

O que o nosso primeiro-ministro, José Sócrates, não explicou - provavelmente porque também ninguém lhe perguntou, foi a formúla utilizada para a consumação deste milagroso sucesso escolar.

No entanto, o conhecido sucesso do Luís, de 15 anos, que passou do 6º para o 7º ano com oito negativas e uma só positiva (a Educação Física), é já um indício da espantosa e milagrosa fórmula utilizada.

E já que esta a fórmula tem dado resultados espantosos, também em Barcelos, mais propriamente na escola básica 2,3 de Manhente, se prepara um novo milagre educativo para o ano lectivo que agora se inicía.

Esta escola debate-se com alguns problemas de abandono e insucesso escolar com maior incidência no 7º ano - o primeiro do 3º ciclo, situação que tem vindo a agravar-se nos últimos anos.

A lógica seria que fossem avaliadas as prováveis ou possíveis causas deste insucesso e abandono, partindo daí para as medidas necessárias de forma a combater esta situação.

Só que, esta seria a lógica caso houvesse um ME mais preocupado com a educação e formação dos alunos e interessado em promover um ensino de qualidade e menos preocupado com os números estatísticos com que permanentemente tenta esconder a realidade.

Assim, o Conselho Executivo deste agrupamento - baseando-se no despacho normativo nº 50/2005 para o ensino básico, aprovado por este mediocre ME liderado por Maria de Lurdes Rodrigues - decidiu que para este ano lectivo 2008/2009, os alunos poderão passar do 7.º para o 8º ano com cinco negativas (5!!!) desde que duas delas não sejam Português e Matemática.
Recorde-se que este despacho normativo dá autonomia aos Conselhos de Turma e Pedagógicos para aprovarem as transições.

 

Quem sabe se no início do ano lectivo 2009/2010, teremos a sra. Ministra em pessoa na abertura das aulas da escola básica 2,3 de Manhente, para entregar os respectivos diplomas de sucesso escolar aos alunos e exemplificar através desta escola os progressos extraordinários no combate ao insucesso escolar em Portugal, fruto das reformas do seu ME.

 

Bem, eu acho até que todos nós deviamos estar orgulhosos e sentirmo-nos uns previligiados por termos em Portugal, uma ministra com desta dimensão e com esta capacidade reformadora. A senhora tem sempre um método mágico e inovador para alterar as coisas para melhor. No entanto, os pais, os alunos, o pessoal docente e o não docente, incapazes de compreender a amplitude de tão extraordinárias melhorias no ensino, passam a vida a criticá-la. Não percebo porquê!...

O que eu acho mesmo é que se esta iluminada senhora se mantiver à frente do ME mais uns anitos, Portugal ainda atingirá o 1.º lugar de sucesso escolar em toda a Europa. Eu acredito que podemos através de tão inovadores métodos, atingir os 100% de transições. E aí, seremos um exemplo mundial e faremos corar de vergonha todos os países europeus que se julgam muito avançados em termos de políticas de educação.



publicado por vermelho vivo às 23:57
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Segunda-feira, 15 de Setembro de 2008
A música está mais pobre

Em 1988, cumpria eu o serviço militar obrigatório no RAC (Regimento de Artilharia de Costa), em Oeiras quando foram anunciadas as datas e cidades para a digressão dos Pink floyd: The Momentary Lapse of Reason tour.

Como habitualmente, Portugal não fazia parte da lista de paises incluídos.

Neste tempo, qualquer grande concerto em Portugal era uma pura utopia.

Os Pink Floyd haviam-se separado e entrado em lítigio no início dos anos oitenta, deram o seu último concerto em 1981 e editaram o seu último álbum em 1983 já sem Rick Wright e com graves conflitos entre David Gilmour e Roger Waters. Qualquer apaixonado pela sua música estava consciente de que “The Final Cut” era mesmo o golpe final e que um regresso da banda era totalmente impensável.

Quando foi anunciada esta digressão - mesmo sem Roger Waters - foi para mim uma espécie de sonho tornado realidade. Se era verdade que não vinham a Portugal, também era verdade que estariam em Madrid, aqui no País vizinho.
Encarei a possibilidade de assistir a este concerto como uma oportunidade histórica e única de ver a melhor banda do mundo (para mim) ao vivo. Além disso, ir a Espanha ver os Pink Floyd não seria o mesmo que vê-los em Portugal pois teria sempre um lado aventureiro que me seduzia.

Este interesse foi acompanhado com igual adrenalina por um camarada de armas residente em Lisboa - que infelizmente não voltei a encontrar após o serviço militar.

Assim, combinamos os dois que não perderiamos esta oportunidade única e nos deslocariamos a Madrid em Julho para assistir ao concerto dos Pink Floyd. Seria para nós um momento histórico ver estes magos da música ao vivo.
Como este camarada de armas residia em Lisboa, ficou combinado que seria ele a comprar os bilhetes numa agência de Almada.
Acontece porém que cerca de quinze dias antes da data tanto esperada, ele comunicou-me que afinal não poderia deslocar-se a Madrid nesta data. Sinceramente, já não me lembro porquê.
Fiquei um pouco retraído. Acabava de ficar sozinho nesta aventura. Mas... A decisão estava tomada e era irreversível. Sim. Porque um momento histórico não se perde por uma qualquer contrariedade

Durante a semana, desloquei-me a Almada e comprei eu próprio o ingresso para o concerto que se realizaria no Estádio Vicente Calderon, fui a uma agência de viagens junto a Santa Apolónia e reservei viagem no comboio Lusitano que partiria de Lisboa na noite de Quinta-feira com destino a Madrid.

 

 
Assim começou uma das mais memoráveis aventuras da minha vida. No comboio travei conhecimento com outro “maluco” pelos Pink Floyd, o Zé Nuno D’Eirão. Voltei a não estar sózinho na aventura.

Esta aventura teve tantas peripécias que seriam necessárias milhares de linhas para a descrever. Reportando-me apenas a uma delas: estando eu a cumprir o serviço militar, o dinheiro não abundava, sabia bem que os trocos estavam contados até ao escudo e que mesmo assim... Bem, no Sábado, para a viagem de regresso a Portugal, o dinheiro já não chegava para o comboio directo de Madrid ao Porto. Era necessário encontrar uma rota de acordo com o dinheiro existente. Era necessário, e assim se fez. Fiz uma viagem de Madrid a Salamanca e outra de Salamanca a Vilar Formoso. Em território português o cartão militar concedia um desconto de 75% nas viagens de comboio. Fiz então a viagem de Vilar Formoso à Pampilhosa, depois, da pampilhosa ao Porto e por fim, do Porto à Trofa. Na Trofa coloquei-me à boleia e assim cheguei a Guimarães no Domingo pela manhã, onde me esperava uma comunhão de um sobrinho.

Bem... Foi uma autêntica aventura, mas valeu bem a pena. Se valeu!...

O concerto foi... Inesquecível. Já vi dezenas e dezenas de concertos, entre eles, Rolling Stones, Chico Buarque, Roxy Music, Pogues... O concerto dos Pink Floyd em Madrid foi o maior, o melhor e mais completo concerto que vi até hoje. Mantenho hoje a certeza que transmiti aos meus amigos após o concerto: mesmo que viva mais cem anos e assista a milhares de concertos, nenhum se aproximará a este. E jamais conseguirei apagar da memória as imagens deste concerto. Vi em Madrid o maior espectáculo musical do mundo.

 

Posteriormente, os Pink Floyd já vieram a Portugal. Não os fui ver. A magia do concerto de Madrid não permitia a possibilidade de desilusão. E a verdade é que pelos relatos e imagens conhecidos, acertei na decisão. A digressão The Momentary Lapse of Reason tour, foi mesmo a última oportunidade de ver os míticos Pink Floyd. O que se seguiu, foram apenas "ancores" da digressão de 1988, complementados com uma enorme carga comercial.

 

Apeteceu-me recordar e escrever sobre esta aventura e este concerto inesquecíveis. Encontrei nesta recordação a melhor forma de homenagear Rick Wright.

Ele é um dos “culpados” destes momentos inolvidáveis.

Ele é um dos “culpados” dos inúmeros momentos de prazer que música dos Pink Floyd já me proporcionou.
 

 

Richard William Wright - “Rick Wright” - teclista dos Pink Floyd, morreu hoje com 65 anos.

 

Sem dúvida que a música ficou hoje muito mais pobre, no entanto, a música dos Pink floyd, recordar-nos-á sempre a sua existência e o seu extraordinário legado musical.

 

Este video não é referente ao concerto de Madrid mas faz parte da mesma digressão:



publicado por vermelho vivo às 23:58
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O estado do ensino em Portugal (II)

Mais uma achega ao actual estado do ensino em Portugal, assente cada vez mais em estatísticas e menos em qualidade.

Um excelente artigo - como é habitual - de Manuel António Pina no JN de hoje: 

 

 

O milagre Educativo

 

 

No ano passado foram computadores. Este ano foram diplomas e cheques, que 23 membros do Governo andaram pelo país a distribuir aos bons alunos.

 

É justo. Ainda há dias a ministra da Educação se congratulava, sem sorrir, com as aguardadas estatísticas de 2008, o prodigioso ano em que, em vésperas de eleições, quase ninguém chumbou (na escola, pois chumbos na vida não são problema do ME). Com notável desprendimento, o Governo atribuiu então os louros ao "esforço de professores e alunos", embora seja de justiça reconhecer que sem aquela grande ideia dos exames fáceis o país não teria decerto "milagre educativo" para festejar. Por isso, em vez de premiar os bons alunos, talvez o Governo devesse antes premiar alunos como o Luís, de 15 anos, um dos milhares de milagrados do ME, que foi notícia no "Expresso" por ter passado do 6º para o 7º ano com oito negativas e uma só positiva (a Educação Física). De facto, é a alunos como o Luís que fica a dever-se o bombástico milagre educativo português. Os bons alunos? Esses já contribuiriam para as estatísticas, com milagre ou sem ele. E apesar dele.

Manuel António Pina



publicado por vermelho vivo às 13:44
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