"Quem luta, nem sempre ganha, mas quem não luta, perde sempre!"

 
Terça-feira, 12 de Junho de 2007
O tempo das giestas

"Este livro pretende ser um pequeno contributo para combater esta campanha de branqueamento do fascismo que tenta demonstrar que o que existiu em Portugal não foi um regime fascista, mas um Estado Novo autoritário e paternalista".

José Casanova

 

 

«A ideia de escrever este livro surgiu-me quando, há cerca de dois anos, uma senhora se dirigiu à sede do PCP, em Lisboa, procurando saber notícias de um rapaz que conhecera e pelo qual se apaixonara, em 1936, e que, a dada altura, desapareceu misteriosa e definitivamente. No decorrer das buscas a que durante muito tempo, procedeu, a senhora chegara à conclusão de que o seu apaixonado de então perfilhava ideias comunistas.
Daí a procurá-lo onde, presumivelmente, lhe poderiam dar, e deram, notícias: o desaparecimento do jovem - na realidade, militante comunista - decorrera do facto de ter sido preso e deportado para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde viria a ser assassinado.
Obviamente, nem a referida senhora é a personagem Teresa, nem o rapaz por ela procurado é o Simão deste romance.
Assim, e porque em ficção (quase) tudo é possivel, a personagem Simão será o trigésimo terceiro resistente assassinado pelo fascismo no campo da Morte Lenta.
Tratando-se de uma obra de ficção, quer os personagens quer a trama desta história são fruto da imaginação do autor.»

José casanova

 

«...Chove, agora, uma chuva miudinha, embora contínua. O vento, depois do temporal que durante a noite assolou o Tejo, amainou e sopra fraco. As gaivotas serenaram, pairam sobre o rio, soltam os seus gritos de tempo de bonança, fazem voos picados como se fossem mergulhar e elevam-se, roçando as águas, amiúde com peixes presos nos bicos.
Simão espera-a junto à Torre, abrigado no seu guarda-chuva grande, acompanhando os movimentos das gaivotas, agora voltando-se, vendo-a, dirigindo-se-lhe em passo acelerado, quase a correr, a correr, no rosto um sorriso feliz. Pega-lhe nas mãos, segurando o guarda-chuva com o pescoço e o ombro: Ainda bem que vieste — murmura. Depois tira-lhe a sombrinha, devolve-lha fechada, ficam os dois sob o guarda-chuva, repete: Ainda bem que vieste...

 

...Marcos, João – é a voz de Inês – estamos a chegar.
Aproxima-se dos dois rapazes, descobre-os entregues à tarefa comum de enxugar lágrimas no meio de comuns sorrisos felizes, vai fazer uma pergunta, não faz, pega na mão do namorado e aperta-a nas suas, Marcos sorri-lhe, as luzes do barco fazem brilhar mais o brilho dos seus olhos, abraça-a, murmura-lhe ao ouvido a chorar e a rir: Sou tão feliz e amo-te tanto...

 

...Estou na frigideira.
Gravo na memória, meu amor, a carta que irei escrever-te quando sair deste inferno.
Reclamei mais comida ao director, ele riu-se, eu disse-lhe que estavam a matar-nos à fome, ele respondeu-me a rir: «É isso mesmo que eu pretendo, que morram». E mandou-me para aqui.
São quatro passos de uma parede à outra e estou sozinho na cela. Antes de me enterrarem neste túmulo de cimento tiraram-me o cinto, o chapéu e as botas e perfilados, cínicos, comunicaram-me que tinha sido castigado a «vinte dias de isolamento com alimentação em dias alternados». O “isolamento” é a frigideira; “alimentação em dias alternados” significa um dia a pão e água fria, outro dia a pão e água quente. Deram-me um pão e uma bilha de lata com água. Um latão sem tampa serve de urinol e de pia.
É um forno quente. Mas dizer quente é não dizer nada do que isto é, deste calor sufocante que me obriga a despir a roupa toda e é cada vez mais quente e sufocante...»
Excertos do romance “o tempo das giestas”

 

Simão e Teresa, Marcos e Inês, eles, ambos bonitos por fora e bonitos por dentro. Elas, ambas doces e rendidas a esta beleza.

Duas histórias de amor similares com 52 anos de distância. Uma esquartejada pela ditadura fascista. Outra, saboreada em plena liberdade. Não fosse o amor, um sentimento universal e intemporal. Afinal, citando o próprio livro, são iguais os apaixonados de todos os tempos: o mesmo desejo de estarem juntos, de se tocarem, de se amarem...

A convicção nos ideais e a certeza de que um mundo melhor pode e deve ser conquistado. Ontem como hoje, a luta pela liberdade e justiça é uma atitude de nobreza, inegociável e incorruptível.

A beleza da liberdade. A estupidez de um regime ditador assente na vassalagem dos seus lacaios e as atrocidades inqualificaveis cometidas no campo do Tarrafal.

Uma história extraordinária e fascinante, um monumento à resistência e luta contra o fascismo.
 

Simplesmente sublime e imperdível, este romance de José Casanova.



publicado por vermelho vivo às 00:06
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2 comentários:
De Anónimo a 20 de Junho de 2007 às 12:31
belo belo belo. como o coração do zé casanova. como a profundidade das coisas simples.


De Anónimo a 20 de Junho de 2007 às 12:32
antonio galamba. tinha esquecido de assinar


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