"Quem luta, nem sempre ganha, mas quem não luta, perde sempre!"

 
Domingo, 23 de Dezembro de 2007
Em época Natalícia

Estamos na quadra natalícia que comemora o nascimento de Jesus Cristo.

Nesta época de grande exaltação para todos os católicos pareceu-me interessante recuperar aqui neste Blog uma entrevista do Bispo das Forças Armadas, Januário Torgal Ferreira, concedida à Antena 1 / JN à um mês atrás. Mais precisamente no dia 24 de Novembro deste ano.

 

"Vejo pouca gente da Igreja a defender os direitos humanos"

 

JN | Antena 1 | Disse uma vez que uma das tragédias em Portugal era a Igreja ser só da e para a Direita. A Igreja em Portugal não está totalmente aberta?

D. Januário Torgal Ferreira | Não, a Igreja em Portugal é totalmente conservadora.

De Direita, portanto.

De Direita nesse sentido. Por isso é que o Papa diz que isto tem de dar uma volta. Pois tem. A mentalidade... Por que é que não se fala do desemprego, da violência contra as mulheres, das purgas contra as crianças, da pouca vergonha instalada na Justiça?

Posso perguntar a um bispo se é de Direita ou de Esquerda?

Costumo dizer eu sei como voto. Venho da Direita. Todos os princípios que recebi são de Direita. Só despertei para os ideais de Esquerda, da justiça social, a partir dos meus 20 anos. São os ideais de justiça social, de solidariedade que competem à Igreja. A Igreja tem coisas fantásticas, de amor, de devoção, de entrega. Mas, não tenhamos medo de dizê-lo: vejo pouca gente da Igreja a defender os direitos humanos. Há, mas pouca.

São os silêncios de que tem vindo a falar?

Sim. Prefiro a ruptura, a discussão. Espero frontalidade, mas, habitualmente, o que se usa é o truque, a hipocrisia.

Viu luz no que o Papa disse aos bispos?

Vi, claro. Ele disse uma coisa muito importante, que é que isto tem que dar uma volta. A Igreja tem de dar uma volta. Também ele, o Papa, em muitas coisas deve dar uma volta.

Que volta? Comecemos pelo Papa antes de falarmos da Igreja portuguesa.

Nós deveríamos ser muito mais escutados por Roma; não deveria haver centralismo. Deveria haver muito mais comunhão. Deveria mudar a apresentação. Deveria haver uma Igreja - não vou advogar que se venda o Vaticano, não sou iconoclasta - diferente na nossa presença, até na forma de vestir, na casa em que habitamos, o carro, o secretário, a corte. Tudo isto deveria mudar. Deveríamos ser muito mais naturais, cidadãos mais próximos e deixar aquilo que vem de outras épocas que não deve ser destruído, mas devemos viver em situações normais.

Seria mais útil?

O próprio Vaticano poderia entregar as coisas que lá tem. Mas eu refiro-me a cada um de nós, bispos, padres. Há pessoas que têm sempre de mudar de carro, comprar o melhor andar... Num país de dois milhões de pobres... A democracia portuguesa está doente. E eu pergunto, a Igreja diz isto?  Não diz!  Está a ver a mentalidade triste, num apagado e triste país.

O dinheiro da basílica de Fátima bem podia ter sido empregue noutra coisa...

Alguém me disse que a igreja vai nascer do dinheiro dado pelos peregrinos; que é para eles se abrigarem no Inverno e no fim do Verão. Só que acho que no Inverno não há nove mil peregrinos no santuário de Fátima (...). Seria tão exemplar criar novas mentalidades - sem discursos do púlpito, como eu estou aqui a fazer, que é muito fácil - para obras sociais mais necessárias. Privilegiaria crianças ou idosos... Aquilo que acho que falta em Portugal, a partir da Igreja, é humanidade.

Estranhou que o Papa citasse o Vaticano II?

Não, o Papa, no fundo, também cita os bispos.

No Vaticano II, defendeu-se o recurso a métodos artificiais para controlar a reprodução. Essa parte não está no discurso do Papa.

Não, infelizmente não foi aceite pelo Papa Paulo VI.

Para a Igreja, é pecado. Para si, não é?

Para mim, não é. Para mim, é um instrumento de defesa. Para mim, é um elemento promotor da vida, uma forma civilizada e inteligente de proceder.

Acha que a Igreja portuguesa pode dar a volta que o Papa pediu?

Temos pernas para andar. Teremos de ter humildade de executar, de aplicar, às vezes, coisas simples, decisões que se assumem. A Igreja foi conivente com o regime de Salazar, é coisa que a gente tem que dizer. Não é pedir perdão - que pedir perdão é mudar a nossa vida. Mas a Igreja tem responsabilidade, porque a Igreja é, de facto, Jesus Cristo...

Vamos ter de terminar. O senhor escolheu o requiem de Mozart para terminarmos esta conversa. Posso perguntar porquê?

Para mim, a morte faz parte da vida. A morte é a ressurreição que eu gostaria que começasse aqui, na Terra. A ressurreição seria o caminhar mais rápido do caminhar mais lento. Mas tudo o que eu fiz na Terra seria em ordem a derrotar estes fenómenos vergonhosos da morte que nós temos.

 

Comentário de Vermelho Vivo: Extraordinária lucidez critica de Januário Torgal Ferreira. Pena é que a Igreja católica na sua imensidão, tenha tão poucos bispos com esta dimensão.

Esta pequena entrevista é um excelente tema de reflexão para a quadra que atravessamos.



publicado por vermelho vivo às 12:27
link do post | comentar | favorito

2 comentários:
De POESIA-NO-POPULAR a 24 de Dezembro de 2007 às 09:46
Sobre os bispos portugueses, tenho para mim que , todos eles adoptaram aquele provérbio" à terra onde fores ter faz como vires fazer"
Já com o bispo Manuel Martins, a quem todos chamavam o bispo vermelho, porque estava em Setúbal , e a desgraça que aqui se passava , e ainda se passa, é impossível ser disfarçada, ele ergueu de facto a sua voz, contra o capitalismo selvagem...mas contra o outro capitalismo?
Daí eu responder sempre, coloquem-no em Braga e depois vejam a cor dele.
E já que comecei com um provérbio vou termiar com mais dois, porque lá nisso nós somos ricos."não é com vingre que se apanham moscas" e "com papas e bolos se enganam os tolos"
Um abraço do tamanho do mundo para todos
josé manangão


De gr-gr a 29 de Dezembro de 2007 às 00:33
Na realidade ele fala bem, mas… o falar não é actuar!
Não esqueço padre Mário da Lixa que falava bem, actuava de igual modo e foi afastado pela igreja de exercer a pratica de padre. Contudo, se formos ao seu blog, ele mantém-se (como sempre) fiel aos seus princípios de padre.
Sigo as palavras do comentário acima referido pelo camarada poeta.

GR


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Outubro 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


posts recentes

Resistir!

Demissão!

A frase do dia

Festa da Fraternidade 201...

A Voz que Conta!

Fascismo. Cuidado eles an...

Ai Crato. Ai, Ai...

Álvaro Cunhal

O 10 de Junho

semelhanças...

arquivos

Outubro 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Outubro 2009

Setembro 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Os meus hinos

 

 

 
Melhores adeptos do mundo