"Quem luta, nem sempre ganha, mas quem não luta, perde sempre!"

 
Sexta-feira, 4 de Abril de 2008
A NATO como instrumento de destruição da Jugoslávia

A NATO cumpriu, também, um papel importante na destruição da República Federativa da Jugoslávia que não deve passar em claro.

Foi na Bósnia que a NATO fez a sua estreia em acções militares ofensivas. Este envolvimento aconteceu comandado e manipulado pelos EUA, no entanto, uma intervenção na Bósnia era de grande utilidade também para a NATO que com o fim da guerra fria tinha deixado de ter uma justificação objectiva para a sua existência enquanto força de auto-defesa. Assim, proporcionava-se aqui a oportunidade redireccionar os seus propósitos e abrir um novo campo de acção para o futuro: ser também uma força policial e militar internacional - ao serviço de alguns, com é óbvio, ou mais explicitamente: ao serviço do império.

Este vazio existente e a oportunidade de salvar a Aliança Atlântica através da Bósnia, está bem patente num artigo escrito por Robert E. Hunter, Embaixador dos Estados Unidos na NATO de 1993 a 1998, na Revista Eletrônica da USIA em Março de 1999.
Escreve:
«Quando cheguei à sede da OTAN em Julho de 1993, percebi que o moral dos meus novos colegas estava baixo, que a Aliança estava insegura quanto à direção que deveria seguir, e que as pessoas até questionavam se a OTAN tinha um futuro. O Pacto de Varsóvia e a União Soviética haviam entrado em colapso e não havia uma justificativa clara para a continuidade da existência da OTAN...»
Mais adiante, sobre a Bósnia:
«...talvez nenhuma outra questão na história da OTAN tenha ameaçado tanto a coesão entre os aliados - e a Bósnia quase destruiu a Aliança. Nove aliados tinham tropas na área, com a UNPROFOR, enquanto os Estados Unidos, que não tinham tropas na área, defendiam o uso do poder aéreo...
Tragicamente, foi preciso que ocorressem as atrocidades, perpetradas pelos sérvios da Bósnia, em Srebrenica, no verão de 1995, para que finalmente os aliados ficassem chocados e entrassem em ação, coletivamente. Finalmente, eu descobri que era possível conseguir um acordo, entre os aliados, para usar o poder aéreo, com o apoio irrestrito de todos, e a OTAN entrou em ação pela primeira vez na suas história. Vinte dias depois, a posição da OTAN havia, sem dúvida, prevalecido, e o bombardeio terminou
Finalmente, a grande verdade:
«Na verdade, a Bósnia salvou a OTAN. Os aliados mostraram que podiam pegar uma aliança projetada para uma finalidade, já cumprida, e dedicá-la a tarefas radicalmente diferentes, mudando, sob o ponto de vista militar, o seu foco em 120 graus, do velho "front" da Europa Central para os Bálcãs. A Bósnia provou a relevância da OTAN; a importância renovada da liderança da América; a sua disposição para compartilhar responsabilidades com os seus aliados; a base essencial, moral e política da segurança, e a continuidade do valor do lema não declarado, emprestado, da OTAN: um por todos e todos por um

A NATO estava na Bósnia desde 1993. O seu papel era o de manter os céus da Bósnia livres de aeronaves e a sua costa livre do tráfico de armas. Mas na sua presença em território bósnio, logo desde este ano começou a efectuar alguns ataques aéreos contra posições sérvias.

Em 5 de fevereiro de 1994, os EUA/NATO bombardeiam instalações militares sérvias na Bósnia

Em meados de Abril de 1994, no quadro da chamada “parceria para a paz”, a NATO inicia a sua ocupação militar da Bósnia.

Em Agosto de 1995, enquanto decorria a “operação tempestade” desencadeada pelos croatas na região da Krajina de onde expulsaram cerca de 200 mil sérvios, naquela que talvez tenha sido a maior limpeza étnica desta guerra, (já relatada num “post” anterior), os aviões da NATO atacavam as posições sérvias em Pale. Davam assim uma grande ajuda aos croatas abrindo-lhe caminho para a conquista total da região da Krajina como viria a contecer e dando cobertura aos massacres aí perpretados pelos croatas sobre os sérvios.

No final de Agosto de 1995, com o pretexto de que dois dias antes a artilharia sérvia teria morto 41 pessoas (pretexto falso como se demonstra no “post” anterior), a NATO avançou com a maior ofensiva contra os sérvios da Bósnia. Mais de 60 aviões de guerra atacaram as posições sérvias na região de Saraievo
Durante 20 dias, os aviões de guerra da NATO executaram cerca de 3.500 missões de bombardeamento aéreo sobre posições sérvias na região.

Acerca do pretexto que deu origem a esta ofensiva da NATO, os sérvios acusaram os muçulmanos de terem feito o massacre para obterem a intervenção da NATO. O secretário-geral da ONU, Boutros-Ghali, também duvidou da veracidade do relato e pediu um inquérito.
Mas a oportunidade não podia ser desperdiçada... "Tudo isso não tinha qualquer importância", disse Richard Holbrooke. "O que contava era a possibilidade de os Estados Unidos agirem de maneira decisiva e persuadirem os seus aliados a participarem no tipo de campanha aérea maciça de que tantas vezes tínhamos falado...”

A manipulação deste suposto massacre acaba por ser desvendada mais tarde pelo próprio Richard Holbrooke ao escrever no seu livro To End a War que Milosevic queria a todo o custo fazer a paz na Bósnia-Herzegovina para pôr fim às sanções que estrangulavam a Sérvia. E que era Izetbegovic quem queria continuar a guerra.

Curiosamente, não se encontram registos de bombardeamentos da NATO sobre croatas ou muçulmanos.

Depois desta acção, os EUA assumiram a liderança das negociações do processo de paz substituindo a liderança da ONU e os esforços de paz da UE.

Esta arrogância de assegurar o controlo das negociações, impor a sua vontade aos sérvios e mostrar quem mandava no mundo, óbviamente que não deve ser separada da manipulação de informação e da decisão da administração Clinton em bombardear os sérvios da Bósnia.

A guerra da Bósnia terminou com os acordos de Dayton, patrocinados pelos EUA, em 21 de Novembro de 1995.

Nestes acordos de Dayton, de iniciativa dos EUA, impôs-se uma paz armada com a presença de cerca de 60.000 militares da NATO, e paradoxalmente seguiu-se a lógica da limpeza étnica. Ou seja, a separação entre os povos criando três entidades nacionais (de um lado, com metade do território, as entidades croata e muçulmana reunidas numa federação; na outra metade, uma entidade sérvia). Em cada um dos territórios, os membros das demais étnias foram deslocados. A lógica da separação étnica que era atribuída aos sérvios e que supostamente estava na base da intervenção dos EUA e aliados na região, foi exactamente o modelo seguido nos acordos.

Estes acordos implicaram também a renúncia sérvia a alguns territórios. Os sérvios que  dominavam cerca de 70% da Bósnia, ficaram apenas com cerca de 50%, perdendo tudo o que estava nos outros 20%.

O acordo transformou a Bósnia numa espécie de colónia administrada pelos EUA e aliados europeus e tornou vencedora uma lógica de separação entre os três povos, pouco comprensivel.

Resumindo, os EUA, com a complacência europeia e a ajuda da NATO, utilizaram a velha fórmula: dividir para reinar.

É assim inequívoco o grande contributo da NATO no combate a uma das partes no conflito, a Sérvia, e a sua acção criminosa ao lado dos EUA para a destruição da República Federativa da Jugoslávia.



publicado por vermelho vivo às 23:56
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1 comentário:
De POESIA-NO-POPULAR a 6 de Abril de 2008 às 12:53
Camarada Rogério
Apesar de não existirem verdades absolutas, sempre há umas maiores que outras, e esta é uma delas
Muita gente se perde em superficialidades, e esquece a verdadeira luta, por comudidade, por ignorância, ou com intensionalidade, refugiando-se na nova palavra (nim).
Abraço
José Manangão


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