"Quem luta, nem sempre ganha, mas quem não luta, perde sempre!"

 
Domingo, 17 de Junho de 2007
Juvenis do Vitória

Os juvenis do Vitória venceram hoje de manhã o Benfica por 3-2.

Com este resultado o Vitória fica a uma vitória de ser campeão nacional de futebol em Juvenis.

O próximo jogo é com os leõezinhos de Alcochete (Sporting) e decidirá o campeão Nacional da época 2006/2007.

 

Força Vitória!

 

É com orgulho que visto branco...



publicado por vermelho vivo às 14:59
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito

Sábado, 16 de Junho de 2007
Porque o Fascismo, a Ditadura e a Pide existiram! (II)

Com esta postagem, termino o ciclo de post’s dedicado à resistência comunista ao fascismo.
Inspirado pelo excelente romance do José Casanova “O tempo das giestas” – que acabei de ler na segunda-feira – fui colocando ao longo da semana alguns factos e testemunhos sobre o Tarrafal ou “Campo da morte lenta”, bem como a evocação do aniversário da morte de duas grandes personalidades comunistas, Álvaro Cunhal e Vasco Gonçalves.

Embora tenha nascido ainda durante a ditadura fascista, devido à pouca idade, não senti nem percebi directamente as agruras e atrocidades fascistas.

No entanto, aprendi, ou ensinaram-me e eu comprovei pelos factos históricos que, a ditadura, a pide, as atrocidades... existiram mesmo. Não foram obra de ficção!

Também aprendi, ou ensinaram-me e eu vou comprovando com os factos que, a liberdade nunca foi, nem é, um direito adquirido naturalmente. Antes, foi conquistado com muita luta, dor e sacrifício e defende-se e reconquista-se a cada dia.

É com enorme respeito e gratidão que olho para todos aqueles que tornaram possivel a liberdade de que hoje disfruto. E é com grande revolta que assisto a algumas manobras de branqueamento deste tempo de ditadura.
 

Termino este ciclo de resistência com um grande poeta, por muitos apelidado como o poeta da revolução, José Carlos Ary dos Santos. Também ele militante comunista, usando as suas palavras e a sua poesia como arma de resistência. 

 



publicado por vermelho vivo às 01:12
link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito

Comunistas na resistência

SOFIA

Está acolá no Forte a nossa amiga
Doente sem ninguém e torturada
Pancada «sono» insultos e a fadiga
Montanhas de fadiga alucinada
 

Há-de estar sem ninguém sozinha não
Estamos todos lá nesta ansiedade
Estamos todos lá no coração
Dessa mulher doente e sem idade
Toda trabalho calor dedicação
Toda suor do corpo e alma vindo
Toda modéstia operária natural
Toda heroísmo popular sorrindo
Como entre a água turva brilha o sal
 

Amiga vou tornar a ver-te um dia
Tu és eterna como a luz, Sofia!
 

José Magro
“Torre Cinzenta
Poemas da Prisão”
Edições Avante!

(poema não legível no lado direito da imagem abaixo)

 


 

A resistência ao fascismo tem uma história, que não pode ser reescrita, nem apagada.

A revolução de Abril ao derrubar a ditadura fascista, pôs fim aos seus instrumentos repressivos: a PIDE, as torturas e as prisões por onde passaram milhares e milhares de portugueses, muitos dos quais lá perderam a vida. Na sua grande maioria eram comunistas.

A conquista da liberdade em 25 de Abril de 1974 é inseparável da luta tenaz e perseverante dos comunistas.

Fugir de cadeias fascistas, era para os comunistas uma tarefa, determinada pela vontade de reocupar o seu posto na luta clandestina e servir a classe operária e o povo português. Uma vontade inseparável do ideal comunista e do objectivo de construção em Portugal duma sociedade socialista, uma vontade que ajuda a compreender a audácia e a coragem posta nas evasões que, quando bem sucedidas, reforçavam o Partido e representavam derrotas para o aparelho repressivo.

Todos os camaradas que se evadiram de Caxias, com excepção de Rolando Verdial, que veio a trair o Partido e o seu passado militante, ocuparam o seu posto de combate e mantiveram-se fiéis ao Partido.

Os camaradas António Gervásio, António Tereso, Domingos Abrantes, Francisco Miguel, Guilherme da Costa Carvalho, Ilídio Esteves e José Magro, em conjunto,passaram 90 anos nas cadeias fascistas. Anos, como os de muitos outros membros do Partido, sacrificados para que Portugal fosse livre.

A resistência ao fascismo e a luta do PCP são inseparáveis. Uma luta que mergulha no passado, se prolonga no presente e se projecta no futuro.

A luta do PCP pela institucionalização do regime democrático-constitucional, pelo aprofundamento e defesa das conquistas de abril, a longa, combativa e persistente luta contra as políticas de direita, por uma alternativa de esquerda, inscrevem-se na luta de sempre do PCP: a luta por um Portugal socialista, liberto da exploração do homem pelo homem.

 

Textos e imagens retirados da exposição "fuga de caxias" promovida pelo PCP aquando da passagem do 45.º aniversário da fuga de Caxias.



publicado por vermelho vivo às 00:23
link do post | comentar | favorito

Sexta-feira, 15 de Junho de 2007
Álvaro Cunhal

 

À 2 anos, no dia 15 de Junho de 2005, o povo português despedia-se de Álvaro Cunhal. Mais de 250.000 pessoas participaram “in vivo” no seu funeral.

 

Álvaro Cunhal desapareceu fisicamente mas o seu exemplo de coragem, coerência e o seu pensamento político continuam vivos em milhares e milhares de portugueses de várias gerações.



publicado por vermelho vivo às 09:23
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito

Quinta-feira, 14 de Junho de 2007
Memórias do Tarrafal

Um dos heróis da resistência ao fascismo, Sérgio Vilarigues – falecido este ano – deu uma entrevista à revista O militante de 01 de Setembro de 2006, sobre o Campo de concentração do tarrafal. Aqui fica:

 

"Para a ditadura,Tarrafal queria dizer morrer longe"

A história sinistra do Tarrafal foi escrita a sangue pela coragem, espírito de luta e abnegação heróica de centenas de patriotas portugueses e africanos ali sujeitos a condições prisionais arbitrárias e extremamente penosas.

Sérgio Vilarigues, actualmente com 91 anos, integrou o grupo dos primeiros presos enviados para o Tarrafal. Tinha sido preso em Lisboa, no mês de Setembro de 1934, com um grupo de seis camaradas. Espancado na esquadra do Calvário, julgado e condenado por pertencer às Juventudes Comunistas e ao PCP, cumpriu integralmente a sua pena no presídio de Angra do Heroísmo. Mas, em vez de ser restituído à liberdade, foi obrigado a embarcar para o novo cativeiro do Tarrafal, de onde só viria a sair em 1940, a título “condicional”, devido à chamada amnistia dos Centenários... Esta breve conversa com Sérgio Vilarigues, dirigente histórico do nosso Partido que durante muitos anos integrou os seus organismos executivos, pretende dar uma ideia do que representou, no quadro da repressão fascista, a criação do Campo de Concentração do Tarrafal.

Camarada Sérgio Vilarigues, em que contexto decidiu a ditadura salazarista criar o Campo de Concentração do Tarrafal?

Na minha opinião, e penso que não será só a minha, o campo destinava-se a liquidar, em condições menos expostas, uma boa parte dos elementos mais firmes da luta contra o fascismo.

Era para não se ouvir aqui a sua voz?

Penso que sim, esperavam que de tão longe não chegasse cá a voz dos presos. Mas acabou por chegar, e bem.

Era o vosso famoso sistema de comunicação?

A primeira das nossas preocupações em nova situação prisional era combater o isolamento que nos queriam impor, era estudar novos meios de comunicação entre nós. Tratava-se de uma forma de luta e resistência. E de sobrevivência, como muitas outras.

Como foi a ida para Cabo Verde?

Quando fui para lá já tinha acabado de cumprir a pena havia três meses. Estava em Angra do Heroísmo, na Fortaleza de S. João Baptista. Aí foram largados setenta e tal presos dos que vinham do Continente e escolheram outros setenta e tal para seguirem viagem. Ia também uma companhia da GNR para nos guardar, provisoriamente, no Tarrafal. Fez um cerco quando chegou a Angra a ameaçou logo que, ao mais pequeno pio, trabalhariam as metralhadoras e as mangueiras do barco com água a ferver. Ainda a propósito de comunicação entre nós: chegámos ao barco e dez minutos depois já estávamos em comunicação com o outro porão. Os presos são assim, há quem diga que nas prisões não se luta, mas eu digo-te: luta-se e de que maneira!

Mesmo no campo de concentração?

Claro, quantas lutas, e vitoriosas, lá fizemos. Eram combates pelos nossos direitos, se assim se pode dizer de um sítio onde é quase caricato falar de direitos, mas sobretudo pela nossa sobrevivência. Porque era disso que se tratava: mandaram-nos para ali para morrermos ali. Isso mesmo nos dizia o Seixas, chefe dos pides do campo: “Tudo o que veio para aqui foi para morrer, lapas e tudo”. Acabou por morrer de podre depois do 25 de Abril, era um depravado, não foi por qualquer castigo pelo mal que fez a tantas pessoas. Ele e todos os outros. E olha que, não sendo eu de vinganças, nada disso, mas não tenho problemas em dizer ainda hoje que não me repugnava ver um Pide sofrer só um pouco, um pouquinho, daquilo que nós sofremos às mãos deles.

Então a mudança para o Tarrafal...

Mudaram-nos para o Tarrafal porque em Angra era muito mais difícil matar, o clima e as condições sanitárias não eram tão maus. Não havia paludismo, não havia malária, e havia uma população à qual os nossos gritos chegavam facilmente. E estávamos mais perto do Continente. As ligações não eram muitas, mas sempre havia um barco, creio que semanal, o que tornava mais fácil e mais rápido fazer chegar as notícias ao Continente.

E havia a célebre “frigideira”...

Sim, havia a frigideira no Tarrafal, mas em Angra também tínhamos a poterna, que não era melhor... A frigideira contribuiu para a morte de vários presos, mas pior do que ela talvez fosse a insalubridade, a água absolutamente inquinada, a falta de higiene, a ausência de assistência médica, a desumanidade, o mal... Até os medicamentos pessoais, que tínhamos connosco ou que nos eram enviados de Portugal, com muitos sacrifícios, pelas nossas famílias e pela solidariedade de amigos, nos eram roubados. Por eles, pelos guardas, pelos esbirros, pelo sistema...

Não achas que os governos de Portugal e Cabo Verde deviam colaborar com vista a preservar a memória de um dos símbolos mais terríveis da repressão fascista contra Portugueses e Africanos?

Lá achar, acho. Mas o que tem sido feito, e eu até já fui convidado para uma dessas excursões, são visitas com muitos empresários e muito boa mesa. E depois acompanham esses cruzeiros com evocações mais ou menos idiotas que resultam em choradeiras pelo macaquinho que morreu, coitadinho, e em desculpas do regimes fascista, que afinal nem era assim tão fascista e afinal os presos do Tarrafal nem morreram todos. Para isso já dei. Quanto à memória do Tarrafal, não sei se os políticos no poder estão de facto interessados em preservá-la. Parece-me até que não. Houve promessas, palavras ditas, projectos ao vento, até de um filme... Sabes dizer-me onde estão as obras?
Seja como for é necessário que os antifascistas, e em primeiro lugar os comunistas – que foram quem pagou o preço mais alto pelo seu amor à liberdade – persistam na luta para que não caia no esquecimento o que foi e o que significou o Tarrafal.



publicado por vermelho vivo às 01:24
link do post | comentar | favorito

Quarta-feira, 13 de Junho de 2007
Álvaro Cunhal - 2 anos depois


publicado por vermelho vivo às 00:48
link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito

Vasco Gonçalves - 2 anos depois

Com dois dias de atraso, aqui fica a Justa homenagem ao companheiro Vasco.

 



publicado por vermelho vivo às 00:09
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

Terça-feira, 12 de Junho de 2007
O Campo da Morte Lenta

Em 1926, a maré reaccionária que alastrava na Europa chegou a Portugal. A 28 de Maio um golpe de Estado militar instaura a ditadura. Começou, para o povo português, um período negro de repressão, obscurantismo, miséria e opressão, que se prolongou por quase meio século.

 

O golpe de Estado de 28 de Maio de 1926 fez Portugal um país sob ocupação militar e policial, num regime de opressão, repressão e exploração - a que chamaram «Estado Novo» e que encontrou em Salazar o seu mentor.Salazar tomou como modelo as ditaduras fascistas de Mussolini e de Hitler. Foi incondicional aliado de Franco na Guerra Civil espanhola (1936-39) para a instauração da ditadura em Espanha. Apoiou as ditaduras nazi-fascistas de Hitler e Mussolini, na II Guerra Mundial, até à sua derrota militar.

 

 

A mais brutal expressão da violência repressiva da ditadura, nesta época, foi a abertura do Campo de Concentração do Tarrafal, na ilha de Santiago, em Cabo Verde, a milhares de quilómetros de Portugal.

O campo do Tarrafal, foi inaugurado em Outubro de 1936. Foi inspirado nos campos de concentração nazis, que Hitler nessa altura começava a montar na Alemanha e depois estendeu, como campos de extermínio, por todos os países ocupados pelo exército nazi.

No Tarrafal não havia câmaras de gás, como nos campos de concentração nazis, mas os presos eram submetidos a um regime de morte lenta - por isso ficou conhecido como o «Campo da Morte Lenta». Os maus tratos e a má alimentação, as doenças sem tratamento e o clima, numa das mais insalubres regiões de Cabo Verde, mataram 32 dos portugueses que para lá foram deportados.

Nas primeiras levas de prisioneiros enviados para o Tarrafal encontravam-se muitos dos participantes nas greves do 18 de Janeiro de 1934 e da revolta dos marinheiros de Setembro de 1936, na sua grande maioria comunistas, mas também outros antifascistas, sindicalistas e anarquistas. Entre os presos políticos enviados para o Tarrafal encontrava-se o Secretário-Geral do PCP, Bento Gonçalves, onde viria a ser assassinado.
 

No dia 31 de Janeiro de 1953, Francisco Miguel, o último preso político português no Tarrafal, é transferido  para a cadeia do Forte de Caxias.
 

Em 26 de Janeiro de 1954, é encerrado o Campo de Concentração do Tarrafal.
 

Em 1962, O Campo de Concentração do Tarrafal foi reaberto, desta vez destinado aos patriotas dos movimentos de libertação das colónias portuguesas.

 

No cemitério do Tarrafal ficaram os corpos de 32 dos prisioneiros que ali morreram vítimas dos maus tratos sofridos. Só depois do 25 de Abril de 1974, foi possível trazer de regresso os seus corpos para terra portuguesa.

 

Cemitério do Campo do Tarrafal

 

Tarrafal – trasladação dos corpos, dos presos políticos portugueses, mortos no Campo do Tarrafal, em Fevereiro de 1978, com a presença de Francisco Miguel antigo preso do Campo e as autoridades de Cabo Verde, militares e povo.

 

Lisboa – Velório quando da trasladação dos mortos em Fev. 1978, com a presença da Direcção do PCP

 

Lisboa – Velório quando da trasladação dos mortos em Fev. 1978, com os antigos presos sobreviventes do Campo do Tarrafal

 

Em 1978, numa grande homenagem nacional, promovida pelos sobreviventes do Tarrafal, e na qual participaram dezenas de milhar de pessoas, os corpos dos prisioneiros que ali morreram foram transladados para um Mausoléu Memorial no cemitério do Alto de S. João, erigido por subscrição pública e no qual estão inscritos os nomes daqueles que o fascismo salazarista matou no Campo de Concentração do Tarrafal.

 

Lisboa – Funeral da trasladação dos mortos em Fev. 1978, da SNBA para o Memorial no Cemitério do Alto de S.João

 

Textos e imagens retirados do site do PCP. 70 anos - Tarrafal «Campo da Morte Lenta» - Nunca mais! Abril Sempre!



publicado por vermelho vivo às 23:06
link do post | comentar | favorito

Presos políticos mortos no Tarrafal

FRANCISCO JOSÉ PEREIRA - MORREU EM 20.09.1937

PEDRO DE MATOS FILIPE - MORREU EM 20.09.1937

FRANCISCO DOMINGOS QUINTAS - MORREU EM 22.09.1937

RAFAEL TOBIAS - MORREU EM 22.09.1937

AUGUSTO DA COSTA - MORREU EM 22.09.1937

CANDIDO ALVES BARJA - MORREU EM 24.09.1937

ABILIO AUGUSTO BELCHIOR - MORREU EM 29.10.1937

FRANCISCO ESTEVES - MORREU EM 29.01.1938

ARNALDO SIMÕES JANUÁRIO - MORREU EM 27.03.1938

ALFREDO CALDEIRA - MORREU EM 01.12.1938

FERNANDO ALCOBIA - MORREU EM 19.12.1939

JAIME DE SOUSA -MORREU EM 07.07.1940

ALBINO COELHO - MORREU EM 11.08.1940

MÁRIO DOS SANTOS CASTELHANO - MORREU EM 12.10.1940

JACINTO FARIA VILAÇA - MORREU EM 03.01.1941

CASIMIRO FERREIRA - MORREU EM 24.09.1941

ALBINO ANTÓNIO CARVALHO - MORREU EM 23.10.1941

ANTÓNIO OLIVEIRA E SILVA - MORREU EM 03.11.1941

ERNESTO JOSÉ RIBEIRO - MORREU EM 08.12.1941

JOÃO DINIS - MORREU EM 12.12.1941

HENRIQUE VALE DOMINGUES - MORREU EM 07.07.1942

BENTO ANTÓNIO GONÇALVES - MORREU EM 11.09.1942

DAMÁSIO MARTINS PEREIRA - MORREU EM 11.11.1942

ANTÓNIO JESUS BRANCO - MORREU EM 28.12.1942

PAULO JOSÉ DIAS - MORREU EM 13.01.1943

JOAQUIM MONTES - MORREU EM 14.02.1943

MANUEL ALVES DOS REIS - MORREU EM 11.06.1943

FRANCISCO NASCIMENTO GOMES - MORREU EM 15.11.1943

EDMUNDO GONÇALVES - MORREU EM 13.06.1944

MANUEL DA COSTA - MORREU EM 03.06.1945

JOAQUIM MARREIROS - MORREU EM 03.11.1948

ANTÓNIO GUERRA - MORREU EM 28.12.1948

 

Porque os resistentes do facismo jamais serão apagados da memória colectiva !



publicado por vermelho vivo às 22:18
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

O tempo das giestas

"Este livro pretende ser um pequeno contributo para combater esta campanha de branqueamento do fascismo que tenta demonstrar que o que existiu em Portugal não foi um regime fascista, mas um Estado Novo autoritário e paternalista".

José Casanova

 

 

«A ideia de escrever este livro surgiu-me quando, há cerca de dois anos, uma senhora se dirigiu à sede do PCP, em Lisboa, procurando saber notícias de um rapaz que conhecera e pelo qual se apaixonara, em 1936, e que, a dada altura, desapareceu misteriosa e definitivamente. No decorrer das buscas a que durante muito tempo, procedeu, a senhora chegara à conclusão de que o seu apaixonado de então perfilhava ideias comunistas.
Daí a procurá-lo onde, presumivelmente, lhe poderiam dar, e deram, notícias: o desaparecimento do jovem - na realidade, militante comunista - decorrera do facto de ter sido preso e deportado para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde viria a ser assassinado.
Obviamente, nem a referida senhora é a personagem Teresa, nem o rapaz por ela procurado é o Simão deste romance.
Assim, e porque em ficção (quase) tudo é possivel, a personagem Simão será o trigésimo terceiro resistente assassinado pelo fascismo no campo da Morte Lenta.
Tratando-se de uma obra de ficção, quer os personagens quer a trama desta história são fruto da imaginação do autor.»

José casanova

 

«...Chove, agora, uma chuva miudinha, embora contínua. O vento, depois do temporal que durante a noite assolou o Tejo, amainou e sopra fraco. As gaivotas serenaram, pairam sobre o rio, soltam os seus gritos de tempo de bonança, fazem voos picados como se fossem mergulhar e elevam-se, roçando as águas, amiúde com peixes presos nos bicos.
Simão espera-a junto à Torre, abrigado no seu guarda-chuva grande, acompanhando os movimentos das gaivotas, agora voltando-se, vendo-a, dirigindo-se-lhe em passo acelerado, quase a correr, a correr, no rosto um sorriso feliz. Pega-lhe nas mãos, segurando o guarda-chuva com o pescoço e o ombro: Ainda bem que vieste — murmura. Depois tira-lhe a sombrinha, devolve-lha fechada, ficam os dois sob o guarda-chuva, repete: Ainda bem que vieste...

 

...Marcos, João – é a voz de Inês – estamos a chegar.
Aproxima-se dos dois rapazes, descobre-os entregues à tarefa comum de enxugar lágrimas no meio de comuns sorrisos felizes, vai fazer uma pergunta, não faz, pega na mão do namorado e aperta-a nas suas, Marcos sorri-lhe, as luzes do barco fazem brilhar mais o brilho dos seus olhos, abraça-a, murmura-lhe ao ouvido a chorar e a rir: Sou tão feliz e amo-te tanto...

 

...Estou na frigideira.
Gravo na memória, meu amor, a carta que irei escrever-te quando sair deste inferno.
Reclamei mais comida ao director, ele riu-se, eu disse-lhe que estavam a matar-nos à fome, ele respondeu-me a rir: «É isso mesmo que eu pretendo, que morram». E mandou-me para aqui.
São quatro passos de uma parede à outra e estou sozinho na cela. Antes de me enterrarem neste túmulo de cimento tiraram-me o cinto, o chapéu e as botas e perfilados, cínicos, comunicaram-me que tinha sido castigado a «vinte dias de isolamento com alimentação em dias alternados». O “isolamento” é a frigideira; “alimentação em dias alternados” significa um dia a pão e água fria, outro dia a pão e água quente. Deram-me um pão e uma bilha de lata com água. Um latão sem tampa serve de urinol e de pia.
É um forno quente. Mas dizer quente é não dizer nada do que isto é, deste calor sufocante que me obriga a despir a roupa toda e é cada vez mais quente e sufocante...»
Excertos do romance “o tempo das giestas”

 

Simão e Teresa, Marcos e Inês, eles, ambos bonitos por fora e bonitos por dentro. Elas, ambas doces e rendidas a esta beleza.

Duas histórias de amor similares com 52 anos de distância. Uma esquartejada pela ditadura fascista. Outra, saboreada em plena liberdade. Não fosse o amor, um sentimento universal e intemporal. Afinal, citando o próprio livro, são iguais os apaixonados de todos os tempos: o mesmo desejo de estarem juntos, de se tocarem, de se amarem...

A convicção nos ideais e a certeza de que um mundo melhor pode e deve ser conquistado. Ontem como hoje, a luta pela liberdade e justiça é uma atitude de nobreza, inegociável e incorruptível.

A beleza da liberdade. A estupidez de um regime ditador assente na vassalagem dos seus lacaios e as atrocidades inqualificaveis cometidas no campo do Tarrafal.

Uma história extraordinária e fascinante, um monumento à resistência e luta contra o fascismo.
 

Simplesmente sublime e imperdível, este romance de José Casanova.



publicado por vermelho vivo às 00:06
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito

mais sobre mim
pesquisar
 
Outubro 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


posts recentes

Resistir!

Demissão!

A frase do dia

Festa da Fraternidade 201...

A Voz que Conta!

Fascismo. Cuidado eles an...

Ai Crato. Ai, Ai...

Álvaro Cunhal

O 10 de Junho

semelhanças...

arquivos

Outubro 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Outubro 2009

Setembro 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006