"Quem luta, nem sempre ganha, mas quem não luta, perde sempre!"

 
Quinta-feira, 25 de Setembro de 2008
O pampa salitreiro

A minha poesia e a minha vida têm transcorrido como um rio americano, como uma torrente de águas do Chile, nascidas na profundidade secreta das montanhas austrais, dirigindo sem cessar até uma saída marinha o movimento de suas correntes. A minha poesia não rejeitou nada do que pôde trazer no seu caudal; aceitou a paixão, desenvolveu o mistério e abriu caminho entre os corações do povo.

Coube-me sofrer e lutar, amar e cantar; couberam-me na partilha do mundo o triunfo e a derrota, provei o gosto do pão e o do sangue. Que mais quer um poeta? E todas as alternativas, desde o pranto até aos beijos, desde a solidão até ao povo, perduram na minha poesia, actuam nela porque vivi para a minha poesia e a minha poesia sustentou as minhas lutas. E se muitos prémios alcancei, prémios fugazes como mariposas de pólen fugitivo, alcancei um prémio maior, um prémio que muitos desdenham mas que é na realidade inatingível para muitos. Cheguei através de uma dura lição de estética e de busca, através dos labirintos da palavra escrita, a ser poeta do meu povo. O meu prémio é esse, não os livros e os poemas traduzidos ou os livros escritos para descrever ou dissecar as minhas palavras. O meu prémio é esse momento grave de minha vida quando no fundo da mina de carvão de Lota, sob o sol a pino da salitreira abrasada, do socavão a pique subiu um homem como se ascendesse do inferno, com a cara transformada pelo trabalho terrível, com os olhos avermelhados pelo pó e, estendendo-me a mão calejada, essa mão que leva o mapa do pampa nas suas calosidades e nas suas rugas, disse-me com olhos brilhantes: "Conhecia-te há muito tempo, irmão." Esse é o laurel da minha poesia, o agulheiro no pampa terrível, de onde sai um trabalhador a quem o vento e a noite e as estrelas do Chile têm dito muitas vezes: "Não estás só; há um poeta que pensa no teu sofrimento."

 

Pablo Neruda, in: "Confesso que vivi"



publicado por vermelho vivo às 12:30
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